Dez dias com os índios Huni Kuin da aldeia Belo Monte

⦾≈ We crossed the Envira River waters and left the city of Feijó (Acre) behind. One hour later we gathered in the Huni Kuin (Kaxinawás) Village Belo Monte to spend the last ten days or the sweetest and most enriching experience of our trip. Even in days of mundane activities we got ourselves deep inside the culture of the real people (meaning of Huni Kuin). Each day was filled with lots of know ledge, question marks and attempts on understanding. They taught us a bit of their native language, habits, music and food. We also attended to some of their rituals like nixi pae (ayahuasca), rapé and kambô.


“Um índio, desde que nasce, ele aprende a se relacionar com tudo de forma bonita. Tudo tem rituais. O índio festeja o plantio, o índio festeja a colheita, festeja o nascimento e não festejam, mas cultuam a morte. O índio se enfeita muito, canta muito, dança muito, brinca muito e ri muito. Acho que é muito difícil para nossa cultura suportar tanta beleza.” – Washington Novaes

Deitar na rede, olhar para o céu e ver araras voando. Adentrar a floresta com as crianças para provar biribá e colher açaí. Adaptar-se ao banho de igarapés e as necessidades na mata. Conhecer plantas medicinais caminhando pelos curtos ramais. Receber sabedoria depois de pingar bawe nos olhos. Cultuar a jibóia em festejos da ayahuasca.

Cortamos as águas do Rio Envira, deixando para trás a cidade de Feijó, a capital acreana do açaí. Uma hora depois já nos juntávamos ao povo Huni Kuin (Kaxinawás) da aldeia Belo Monte, para passar os últimos dez dias e ter a experiência mais doce e enriquecedora dessa nossa viagem.

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Os Huni Kuin são uma etnia que, no Brasil, existe apenas no Acre, sendo a população indígena mais numerosa no Estado. Depois habitam a parte de selva do Peru. Organizam-se em comunidades familiares e vivem da caça, pesca e plantio. O ponto forte da cultura é o xamanismo, a medicina nativa e as celebrações das ervas de aprendizagem.

Bom, estávamos em um período sem festividade, em que todos se juntam e se mostram pintados com kene kuin, enfeitados de cocar e dançam mariri. Mas, mesmo em dias de atividades corriqueiras, conhecemos e nos aprofundamos na cultura dessa gente de verdade (significado de Huni Kuin). Cada dia era um amontoado de saber, uma interrogação, uma tentativa de compreensão.

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O saber veio das 13 famílias que compõem a aldeia Belo Monte e que vivem em constante luta para resgatar sua cultura original.  Falam a língua nativa, ensinam costumes às crianças e praticam seus rituais de nixi pae (ayahuasca), rapé e kambô (vacina do sapo). Participamos disso tudo isso e ainda provamos do dia a dia comum.

Aquilo de comer macaxeira com farinha pela manhã, almoçar carne de caça e jantar o vinho do açaí que nós mesmos fizemos. Ensinar desenhos para as crianças e aprender com elas um pouco da língua. Esperar que elas, lá de cima duma árvore, nos lance uma fruta que nunca vimos e nem ouvimos falar.

Sentar com caciques e pajés, à luz ingênua da lamparina, para escutar mitos, lendas e histórias de seus ancestrais. Ver como as mulheres fazem os artesanatos e como pintam o corpo com jenipapo e urucum. Participar das rodas de canto e perceber que todos tocam violão e possuem facilidade para aprender música.

Já nossas interrogações e compreensão foram vindo com o tempo. Nós dois discutíamos diariamente nossa percepção sobre o funcionamento da aldeia, do sentimento de ser índio diante a sociedade; de estar permeado pela cultura branca e ao praticar costumes externos ouvir que nem índio são mais.

Aí chegamos a conclusão de que é muito fácil criticar nossos indígenas por não andarem mais nus e terem celulares, sendo que nós mesmos empurramos isso a eles. Isso desde muito tempo atrás, quando os fizemos engolir nossas religiões soberanas e os obrigamos a vomitar sua cultura e suas crenças. Não tem mais volta. A cidade está ali e os índios também. 

Assim, acreditamos que o trabalho que os Huni Kuin exercem é fundamental para a população indígena do Brasil. Eles já entenderam que houveram rupturas, que fazem parte da sociedade brasileira, mas que agora não podem mais ser marginalizados. Por esse motivo apoiam jovens que ingressam em universidades, círculos políticos e que dominam a tecnologia. Querem, com esse equilíbrio, entender e defender seus direitos e ainda fortalecer a cultura própria, e estão certos.

A energia elétrica, por exemplo, chegou lá só em 2008, e a aldeia está ali, a uma hora de barco, da cidade. Você já se imaginou sem luz todos esses anos? A escola que receberam alguns anos atrás comporta apenas as crianças do ensino fundamental, os jovens do ensino médio não têm sala de aula, estudam no shubuã (sede da aldeia).

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Tentar analisar isso tudo foi intrigante. Por isso compreendemos que índio é índio com ou sem roupa. Que o Brasil é indígena e, assim como cultuamos Yemanjá e a beleza dos nossos afros-descendentes, por que não celebrar a mata, as cobras e o seu dançar? As manifestações indígenas seguem dispersas como cultura popular em nosso país e não deve ser assim.

Sentimos vontade de seguir com esses encantos. Pintar no rosto o rabo do jacaré e os olhos do sabiá. Respeitar a sumaúma como a rainha da floresta, a árvore da vida. Aprender os cânticos da jibóia e pedir a ela conhecimento e luz. Ouvir atento o que dizem os mais velhos, donos de sabedoria. Andar descalço e pertencer a terra. Carregar no peito um sentimento Huni Kuin. Gritar Haux Haux.


Os Huni Kuin da aldeia Belo Monte sofrem com a escassez de alimentação tradicional (caça e pesca). Eles já ganharam açudes por parte do governo, mas aguardam a chegada dos peixes. Além disso, falta apoio financeiro para iniciativas culturais por parte dos órgãos publico. Assim, toda e qualquer ajuda é bem-vinda. Se você quer colaborar de alguma forma, entre em contato conosco pela nossa página no Facebook. Vamos voltar à aldeia em alguns dias para levar um material que produzimos e também miçangas, que eles necessitam muito. 


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7 comentários sobre “Dez dias com os índios Huni Kuin da aldeia Belo Monte

  1. Muito bom meninos!! É gratificante perceber a entrega de vocês para nossa cultura, nossa casa, nossa gente! Parabéns pelo relato deste povo, que muito rapidamente tive a oportunidade de conviver! E como é bom ver que tudo é muito celebrado, e acima de tudo é agradecido! Gratidão é uma palavra que eles falam com mais naturalidade possível, bem como o sentimento expresso no haux haux transmite ainda mais a simplicidade deste povo! Que Deus continue abençoando vcs e que possamos valorizar mais nossa cultura indígena com respeito e gratidão! Que eles consigam o apoio necessário para manter suas raízes!! Abraços meninos!!

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  2. Parabéns meninos! muito bacana acompanhar a entrega de vocês em tudo que viveram aqui. Minha passagem pela aldeia foi breve, mas suficiente pra compreender e apoiar tudo isso que contaram. Sucesso! haux haux

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  3. Emocionante como vocês sentem, descrevem e compartilham essas experiências…me faz lembrar que atingir tamanha delicadeza só é possível se estivermos inteiros nos momentos vividos…pelo menos é isso que eu sinto nesse blog: um completo contentamento de estar aqui e agora! Beijo no coração! Vamos nos ver antes de vocês partirem…..

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